A Guerra na Ucrânia e as eleições 2024 nos EUA — “Fim do jogo na Ucrânia: EUA vs. EUA”, por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

9 min de leitura

Fim do jogo na Ucrânia: EUA vs. EUA

 Por Alastair Crooke

Publicado por em 13 de Fevereiro de 2023 (original aqui)

 

Foto: Reuters/Jonathan Ernst

Bill Burns viajou (em segredo) em meados de Janeiro para se encontrar com Zelensky. Seria para preparar Zelensky para uma mudança na postura americana?

 

A histeria ante o globo chinês que sobrevoava os Estados Unidos – elevada ao volume máximo – com o envio de um avião Raptor (F-22) para o rebentar e a posterior algaraviada pelo “rebentamento” como o primeiro ataque “ar-ar” do Raptor, pode ser motivo de chacota silenciosa em todo o mundo. No entanto, paradoxalmente, este acontecimento aparentemente trivial pode projetar uma grande sombra sobre o calendário dos EUA para a Ucrânia.

Pois é o calendário político dos EUA que pode ainda determinar o que acontece a seguir na Ucrânia – a partir do lado ocidental.

Parece que nada de importante ocorreu – foi um instante de frenesim espião, deixando inalterada a “dura tarefa” de Biden: ele precisa de convencer o eleitor americano, confrontado com o colapso dos padrões de vida, de que lêem mal as “o que se diz e escreve”; que, em vez de estar em depressão, a economia – ao contrário da experiência de vida das pessoas – está “a funcionar bem para elas”.

Biden precisa de fazer esta magia contra as sondagens que dizem que apenas 16% dos americanos se sentem melhor desde o início do seu mandato, e 75% dos democratas e dos eleitores de tendência democrata desejam que ele não se candidate em 2024. Significativamente, esta mensagem vem hoje dos meios de comunicação de tendência democrata, sugerindo que já estão em circulação pensamentos para o substituir.

Por agora, os aliados de Biden nos poderes estabelecidos do partido (a DNC) continuam a abrir caminho para a sua candidatura – adiando as primárias (nas quais se poderia esperar que Biden seja derrotado) para uma eleição primária posterior na Carolina do Sul, onde os eleitores negros e latinos reflectiriam a demografia na qual Biden poderia (possivelmente) brilhar. Pode funcionar; pode não funcionar.

Em termos simples, neste cenário altamente céptico do Partido, Biden terá de mudar a percepção que os americanos têm da economia num momento em que muitos indicadores sinalizam uma maior deterioração. Será um “trabalho duro”. A equipa económica, com certeza, insistirá: “Mantenha o foco nas realizações económicas! Não queremos distracções de quaisquer fracassos de política externa; não queremos que os debates televisivos se centrem em balões, ou em torno de tanques de Abrams: ‘É a economia, estúpido!'”.

O ‘balão chinês’ foi rebentado, sim, mas igualmente rebentou a esperança da Equipa Biden negociar um entendimento limitado com um assanhado Presidente Xi que pudesse impedir que as tensões com a China se tornassem uma questão perturbadora nos debates das primárias. O incidente do balão obrigou os EUA a cancelar o encontro de Blinken com Xi (apesar de tal reunião com o chefe de Estado fosse um acontecimento raro).

A poderosa facção “dos falcões da China” nos Estados Unidos estava radiante. A “morte” do balão da China, inadvertidamente e num instante, elevou a China a ‘Ameaça Principal’. Foi a oportunidade para estes falcões fazerem girar para trás a política externa em relação à Ucrânia e à Rússia – para se concentrarem totalmente na China.

Eles argumentam que a Ucrânia estava a ‘comer’ demasiado o stock de armas dos Estados Unidos. Estava a deixar os EUA numa situação de vulnerabilidade; seriam necessários anos para que os EUA compensassem esta perda de equipamento e restabelecessem as linhas de fornecimento de armas. E não há “tempo a perder”. O “cerco militar de dissuasão” em torno da China tem de estar em vigor – o mais rapidamente possível.

Naturalmente, o apertado círculo neoconservador em torno de Biden – alguns dos quais investiram no projecto “Destruir a Rússia” durante décadas – não está pronto para “deixar escapar” o projecto da Ucrânia, para a China.

No entanto, a narrativa da Ucrânia “bolha” foi perfurada, e tem vindo a perder hélio há já algum tempo. A narrativa do Beltway, ou seja, dos círculos do poder de Washington – e mesmo a narrativa dos media dominantes – passou de ‘Rússia a perder’ para uma ‘derrota ucraniana é inevitável’. De facto, Kiev está derrotada, e está pendurada pelo mais fino dos fios.

Olexii Arestovich, conselheiro sénior de Zelensky e antigo ‘porta-voz’ no gabinete presidencial, falando no final de Janeiro deste ano, foi franco na sua avaliação:

“Se todos pensam que temos garantida a vitória na guerra, isso é muito improvável que aconteça. Desde 14 de Janeiro que deixou de ser assim. O que pensa você, que a avaliação do Presidente da Polónia, Duda, não se limitou a dizer isto sobre os meses decisivos. Que é em geral desconhece-se se a Ucrânia irá sobreviver …

“A guerra pode não terminar como os ucranianos esperam, e como resultado, a Ucrânia pode não devolver todos os seus territórios, e o Ocidente está pronto para seguir tal cenário… O que acontecerá à sociedade que aumentou demasiado as suas expectativas, mas que receberá um Minsk-3 condicional? Este recuo de expectativas não satisfeitas irá atingir-nos tão duramente – moralmente e tudo o resto – que ficaremos simplesmente atordoados.

“A saída desta guerra pode não ser de todo aquilo que nos pareceu há três meses atrás, após o sucesso da operação Kherson. E não porque os insidiosos americanos não dêem armas ou atrasem, mas porque o sucesso requer 400 mil soldados perfeitamente treinados com armas da NATO para arrasar tudo e libertar os territórios. Será que os temos? Não. Será que os teremos ano? Não. Não haverá instalações de treino suficientes.

“Nós, como sociedade, não estamos preparados para tal resultado. Decidi dizê-lo como sendo a expectativa do lado russo. Mas o mais desagradável é que no Ocidente eles pensam da mesma maneira, e nós dependemos totalmente deles. O que deve o Ocidente fazer? O cenário de duas Coreias. “Criar a Coreia do Sul com garantias”, disse Arestovich, acrescentando que com esta opção, a Ucrânia pode obter muitos benefícios.

Dito sem rodeios, se Biden quiser evitar uma repetição do humilhante fracasso afegão, a América precisa urgentemente de avançar antes do início do calendário presidencial de 2024 este Verão – com a Ucrânia/Rússia a sugar todo o oxigénio dos próximos debates económicos.

Mas não é isso que está a acontecer. Victoria Nuland – que tem estado a ‘chefe’ em Kiev durante uma década – está a supervisionar uma purga: Os que não são dignos de confiança estão ‘fora’, e os falcões ucranianos radicais pró-americanos estão ‘dentro’. É uma reformulação da máfia de Kiev, que deixa Zelensky sem amigos – e totalmente dependente de Washington. Parece ser uma preparação para que os EUA tentem dobrar a aposta na Ucrânia.

O artigo pormenorizado de Seymour Hersh sobre o pano de fundo da sabotagem do gasoduto Nordstream pelos EUA, no qual Hersh trabalhou durante muitos meses (embora as suas afirmações tenham sido negadas pela Casa Branca), diz-nos algo muito significativo.

Todos os conhecidos neoconservadores anti-Rússia (Nuland, Sullivan e Blinken) faziam parte do plano de sabotagem do Nordstream – mas o impulso para tal veio de Biden. Ele liderou-a. E, para ser claro, Biden está tão emocionalmente investido na Ucrânia como os seus companheiros de equipa; é provável que também ele não consiga “largar” a Ucrânia.

MAS, dobrar a aposta agora, na Ucrânia, não vai funcionar para Biden. Seria altamente imprudente (embora a trama Nordstream não fosse nada se não imprudente).

Dobrar a aposta não trará a sua esperada “vitória”, porque a sua lógica se baseia numa flagrante análise errónea.

Olexii Arestovich, antigo porta-voz e conselheiro de Zelensky, descreveu as circunstâncias da primeira entrada da Operação Militar Especial (OME) russa na Ucrânia: Foi concebida como uma missão sem derramamento de sangue e deveria ter decorrido sem vítimas, diz ele. “Eles tentaram travar uma guerra inteligente… Uma operação especial tão elegante, bonita e rápida, onde pessoas educadas, sem causar qualquer dano a um gatinho ou a uma criança, eliminariam os poucos que resistiriam. Eles não queriam matar ninguém: Bastava assinar a renúncia“.

A questão aqui é que o que ocorreu foi um erro de cálculo político por parte de Moscovo – e não um fracasso militar. O objectivo inicial da OME não funcionou. Não resultaram quaisquer negociações. No entanto, daí resultaram duas grandes consequências: os controladores da NATO lançaram-se sobre esta interpretação para apregoarem o seu preconceito de que a Rússia era militarmente fraca, atrasada e cambaleante. Essa leitura errónea subjacente à forma como a NATO entendia que a Rússia iria prosseguir com a guerra.

Era totalmente incorrecta. A Rússia é forte e tem o predomínio militar.

Contudo, baseando-se na presunção de fraqueza, a NATO mudou os planos de uma insurreição guerrilheira planeada para uma guerra convencional ao longo das “Linhas de Defesa Zelensky” – abrindo assim o caminho para o domínio da artilharia russa para desgastar as forças da Ucrânia até à desordem total. Trata-se de um erro que não pode ser rectificado. E experimentá-lo poderia apenas levar à Terceira Guerra Mundial.

O tanque Abrams M1 não salvará Biden do fracasso na preparação para os debates eleitorais nos EUA:

“Foi concebido para o tipo de combate tanque a tanque que não acontecia desde a Segunda Guerra Mundial. É enorme, caro, cheio de todo o tipo de electrónica. E alimentado por um motor a jacto reaproveitado. Avaria-se rapidamente e necessita do seu próprio exército de mecânicos, fica sem gasolina rapidamente e, com quase 70 toneladas, é demasiado pesado para atravessar a maioria das pontes e necessita de equipamento especializado para atravessar pontes. E afunda-se na lama. Os sauditas usaram tanques Abrams no Iémen – e perderam 20 para os Houthis, que não eram propriamente a força militar mais sofisticada”.

Então, como é que tudo isto se vai desenvolver? Bem, a luta está em curso – em Washington. Os “falcões da China” americanos vão tentar que os EUA voltem a centrar toda a sua atenção na China. Os neoconservadores Biden poderão tentar alguma táctica de escalada na Ucrânia que torne imparável a guerra com a Rússia.

No entanto, a realidade é que o “Balão” da Ucrânia já rebentou. Os círculos militares e civis em Washington sabem-no. O ‘elefante na sala’ do inevitável sucesso russo é reconhecido (embora, com a compulsão de evitar parecer ‘derrotista’ – que persiste em certos quadrantes). Sabem também que o “balão” NATO (enquanto “força formidável”) estalou. Sabem que o balão da capacidade industrial ocidental para fabricar armas – em quantidade suficiente e durante uma longa duração – também rebentou.

As consequências são o risco de graves danos para a reputação dos EUA, quanto mais tempo a guerra persistir. Estes círculos não querem isso. Talvez concluam que Biden não é o homem indicado para conduzir os EUA para fora deste beco sem saída – que ele é parte do problema, e não da solução. Se assim for, ele tem de sair a tempo de os democratas decidirem quem querem que os conduza nas eleições presidenciais de 2024 (uma perspectiva nada fácil).

Podem também sentir que as linhas de campanha de 2024 já estão a unir-se para o Partido Republicano, que tem a sua própria leitura do fracasso da Ucrânia – “Vamos sair da Ucrânia para enfrentar a China” (com total apoio bipartidário). Isto significa, em primeiro lugar, que o fio condutor do apoio financeiro dos EUA à Ucrânia – como Bill Burns (chefe da CIA) terá dito a Zelensky na sua última visita – provavelmente irá reduzir-se este Verão. E, em segundo lugar, indica que qualquer apoio bipartidário para armar ainda mais Kiev poderá estar terminado na altura em que a temporada das primárias estiver em pleno andamento.

Bill Burns viajou (em segredo) em meados de Janeiro para se encontrar com Zelensky. Terá sido para preparar Zelensky para uma mudança na postura americana? Burns, o silencioso negociador de longa data dos EUA, não faz parte do programa Nuland. O primeiro afirmou na Universidade de Georgetown no início de Fevereiro que “a China continua a ser o maior desafio geopolítico que os EUA enfrentam nas próximas décadas, e a maior prioridade para a CIA”. O seu enquadramento, “não foi um erro, mas a substância” no seu discurso.

Nuland pode estar a plantar falcões alinhados com os EUA à volta de Zelensky para continuar a guerra, mas existem outros interesses mais amplos dentro de Washington. Os círculos financeiros estão preocupados com um colapso do mercado que poderá levar à hemorragia do valor do dólar. Há também preocupações de que a guerra da Ucrânia esteja a contribuir para um enfraquecimento sério da posição dos EUA no mundo. E há preocupações de que uma imprudente equipa Biden possa perder o controlo e levar os EUA a uma guerra mais vasta com a Rússia.

Em qualquer caso, o tempo escasseia. O Calendário Eleitoral aproxima-se. Biden vai ser o candidato democrata? Se será ele ou não candidato em 2024 precisa de ser resolvido antes das primárias antecipadas para permitir a qualquer sucessor dar provas em tempo útil.

 

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

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